Cristovam “auto critica consequente”

 Auto Critica Consequente

*Por Cristovam Buarque

Foto do Facebook do Senador Cristovam Buarque

Foto do Facebook do Senador Cristovam Buarque

Os jornais divulgam notícia de que dirigentes do PT desejam expulsar o ex-governador Agnelo Queiroz do quadro de militantes. É uma tentativa de se separar da imagem deixada pelo ex-governador, por causa da calamidade que ele criou, tanto no equilíbrio fiscal quanto na qualidade dos serviços públicos da cidade. Mas é uma hipocrisia querer responsabilizar apenas Agnelo Queiroz. Se quiser prestar contas à opinião pública, o PT precisa fazer forte autocrítica de todo o partido e suas lideranças, sem exceção, sobre os erros do governo que terminou.
É hipocrisia responsabilizar o governador por um governo de quatro anos em que o PT foi predominante. Ao lado do Agnelo, estiveram dezenas de dirigentes e militantes do PT, alguns considerados interventores do partido, tomando decisões com ele e também se beneficiando das benesses do poder. Cada secretaria e cada empresa pública tinha os próprios dirigentes. E cada administração regional, administrador. A gestão temerária, irresponsável e desastrosa dos últimos quatro anos é culpa de todo o PT. A autocrítica tem de identificar a responsabilidade de todo o partido, por ações ou omissões, especialmente dos dirigentes. Se decidir pela expulsão, deve ser de todos os responsáveis, sem tentar enganar a opinião pública responsabilizando apenas o ex-governador.
Mas não é apenas o PT que precisa fazer autocrítica. O governo do PT teve um conjunto de partidos que formaram uma frente. Todos esses partidos foram responsáveis pela vergonha do último governo, especialmente o PMDB, que tinha influente vice-governador nas decisões. Até mesmo partidos que não compuseram o governo por todo o mandato precisam se explicar. O PSB também precisa fazer uma autocrítica, porque ficou no governo Agnelo até quase o seu final, sem conseguir influir nos rumos do GDF. O PCdoB ficou até o último dia, assim como o PV.

Meu partido, o PDT, teve um papel fundamental na eleição de Agnelo Queiroz. Em 2010, a alternativa a ele era pior para a cidade. Nossa defesa é que fomos excluídos do governo desde seu início. Fui um crítico do governo Agnelo, especialmente das obras faraônicas, mas assumo a responsabilidade de ter me dedicado mais à agenda nacional de senador da República. Não usei minha posição de senador pelo DF para forçar reorientações nas absurdas decisões que eu criticava.
Os sindicatos precisam fazer autocrítica por buscar ganhos acima do possível e colocar os interesses de seus filiados acima dos interesses dos usuários de seus serviços. Em 1998, o Sindicato dos Professores aproveitou a fragilidade política do governo, que então disputava a reeleição e cuja principal bandeira era a educação, fazendo uma greve para obter ganhos salariais que não poderiam ser cumpridos. O governo negou o aumento irresponsável e a greve durou semanas. A reeleição foi perdida, mas professores e servidores não ficaram sem salários no fim do ano. A derrota foi o preço da responsabilidade do governo contra a insensatez do sindicato.
O PT tem de parar com a hipocrisia de jogar toda a responsabilidade sobre os ombros do ex-governador. Todos nós que fazemos parte do bloco progressista também temos de nos autocriticar. Mas isso não basta se não tomarmos as lições necessárias e mudarmos o comportamento para o futuro.
De nada adianta a autocrítica se não percebermos nossa responsabilidade diante do novo governo que há pouco tomou posse. O próprio governador deve aprender a lição do passado e não se isolar das forças que o elegeram, não deve ficar preso apenas ao seu partido e ao do vice ou a personalidades ao seu lado; deve ser cuidadoso e transparente emcompras e licitações. Mais imperdoável do que errar é repetir erro.
Por sua vez, as lideranças das demais forças não devem se afastar, quando o governador pedir colaboração. Devem colocar os interesses de Brasília acima dos seus interesses específicos de cargos e vantagens com o poder. Os sindicatos devem continuar lutando para ampliar as remunerações de filiados, mas devem ter clareza dos limites fiscais do governo e devem levar em conta os interesses da população e dos usuários dos serviços públicos. Brasília espera isso de nós: uma autocrítica geral e consequente.
*Cristovam Buarque é Professor Emérito da UnB e Senador pelo PDT-DF

Fonte: Correio Braziliense.

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