Crise financeira do Brasil sufoca atividade industrial no DF e Entorno

A diretoria da Ciplan, que responde por quase metade da produção de cimento no Distrito Federal, já começou a repensar projetos e não descarta demissões

Nos últimos três anos, as empresas da área diminuíram a capacidade produtiva e os postos de emprego. Elas cobram maior atuação do governo. Na capital do país, há exemplos de que a crise pode ser vencida com soluções criativas

O momento é de superação

Embora o período de crise gere pessimismo no setor produtivo, especialistas orientam que pensar em estratégias para superar o momento ruim pode deixar a empresa mais competitiva. Na análise de Waldery Rodrigues Júnior, doutor em economia e professor do Ibmec-DF, a região do Distrito Federal e do Entorno ainda tem espaço para industrialização. “Enquanto no Brasil, a indústria representa 23% no PIB, no DF é de no máximo 6%. Mas dá para chegar a 10% e até 15%. É preciso diversificar a matriz produtiva local e torná-la mais competitiva. A indústria é um bom caminho porque trabalha com produtos de alto valor agregado”, defende.

O Grupo Brasal, um dos principais holdings brasilienses, optou por não paralisar as atividades e continuar investindo. “A crise é latente, mas nós nos julgamos preparados para enfrentá-la. Como no ano passado o GDF teve muitas dificuldades para aprovação de projetos, optamos por intensificar as atividades em outras cidades, como Goiânia (GO) e Uberlândia (MG)”, conta Dilton Castro Junqueira Barbosa, diretor-geral da Brasal Incorporações. O grupo vai lançar 11 empreendimentos, com valor geral de vendas estimado em R$ 780 milhões.

Na opinião de Júlio Miragaya, vice-presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e especialista no assunto, há espaço para investimentos no setor. Ele acredita que a situação atual deve se estender por um ou dois anos. “A crise tem muito de real, mas há certo exagero. Vamos recuperar o terreno perdido. Em 2002, foi um ano ruim; em 2003, um período de reajustes; mas, de 2004 a 2010, o país bombou”, defende.

A indústria do DF e do Entorno pede ajuda

Sufocada por burocracia, dificuldade logística e desinteresse político, a atividade industrial do Distrito Federal e Entorno (Região Integrada de Desenvolvimento Econômico — Ride) está ainda mais fragilizada pela crise financeira que o Brasil atravessa. Pequena e com pouca contribuição no Produto Interno Bruto (PIB) local, o segmento está encolhendo. Boa parte das fábricas instaladas diminuiu a capacidade produtiva, assim como os postos de trabalho. No lugar de crescer, a atividade fabril retrai na região. Enquanto no Brasil, a indústria corresponde a 23,4% das riquezas produzidas, no DF, o índice é de 5,7% — a menor participação registrada nos últimos 10 anos na capital. Em 2005, ela chegou a significar 7,5% do PIB local. Em cidades como Luziânia (GO), uma das principais economias do Entorno, o último PIB consolidado mostra que a fatia do setor na economia municipal caiu de 34,9% em 2010 para 32% em 2012.

O índice de confiança do empresário da indústria do Distrito Federal, medido pela Federação das Indústrias do Distrito Federal (Fibra), atingiu o menor patamar dos últimos cinco anos e a tendência é de queda — fechou março em 34,6 pontos, em uma tabela de 0 a 100. Em Goiás, não existe um estudo específico para a região do Entorno, mas em todo o estado a sensação de incerteza econômica ganha força e os índices despencaram nos últimos 12 meses — em março de 2014, ficou em 39,1, sendo que no mesmo mês do ano anterior estava em 57,8. “Os indicadores mostram a redução da atividade econômica, mas não sabemos a extensão disso na indústria. A gente vê que a maior parte da atividade industrial local é pequena e sente mais a crise porque trabalha no limiar, não tem margem, não tem gordura, não tem tamanho para suportar a economia fragilizada”, analisa Jamal Bittar, presidente da Fibra.

A Ciplan, uma das mais tradicionais cimenteiras do Distrito Federal e responsável por quase metade (45%) do mercado, informou que as vendas de 2015 reduziram em 30% na comparação com o ano passado. Por causa desse cenário, suspendeu os principais projetos da companhia, como expansão da capacidade produtiva e troca da frota de caminhões betoneiras. Além disso, a empresa não descarta a possibilidade de demissões.

“A insegurança do empresariado tem levado Brasília ao pior momento da construção civil. Alinhado a isso, o Governo do Distrito Federal suspendeu projetos de infraestrutura”, afirma Roberto Castelani, CEO da Ciplan Cimentos. “Por isso, este ano, estamos com todos os nossos projetos suspensos. Assim, será inevitável a dispensa da mão de obra dependente desses projetos. Estamos reduzindo nossos custos para evitar que a demissão atinja nossos funcionários”, complementa.

Informações do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que 246 empresas da indústria e da construção civil deixaram o cadastro do órgão nos últimos 12 meses e 1.732 vagas foram suspensas na Ride desde o início de 2015.

Rede econômica

A Ride é uma região de desenvolvimento econômico criada pela Lei Complementar nº 94, de 19 de fevereiro de 1998, e regulamentada pelo Decreto nº 7.469/2011. A Ride do DF e do Entorno foi a primeira estabelecida no país e conta com 22 municípios e o Distrito Federal — 19 em território goiano.

Estoque e endividamento

Dados da Fibra e da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) apontam que a falta de venda do estoque fez com que os empresários previssem para os próximos seis meses a redução de compra de matéria-prima e a queda na produção. “O setor industrial está em um cenário hostil. Ele esbarra com situações como falta de infraestrutura, tributação elevada e falta de incentivos. É um ambiente desestimulante, ainda mais para os pequenos”, explica Jamal Bittar, da Fibra.

A diminuição das vendas trouxe outro peso para a indústria: o endividamento. Segundo sondagem especial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), só 16,9% das indústrias brasileiras não se consideram endividadas. E as indústrias de pequeno e médio portes — principal perfil de industrialização da região — são as mais afetadas pelas dívidas. O estudo aponta que 24,6% das pequenas estão próximas do endividamento e quase 10% estão acima da margem. Entre as médias, 12,2% extrapolam a capacidade de pagamento e 23,2% estão no limite.

“O governo precisa criar de maneira urgente uma carteira de crédito para investidores, com juros próximos à capacidade do empresário de gerar receita para diminuir o endividamento”, analisa Waldery Rodrigues Júnior, doutor em economia e professor do Ibmec-DF.

Fonte: Correio Braziliense

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